quinta-feira, 29 de agosto de 2013

profundezas * nove mini-contos e dois poemas - por alexandre santos

"Contar uma vida é uma exigência que se impõe em face da mortalidade humana, e aquilo que desta vida importa contar é justamente o seu entrelaçamento com o mundo em que ela foi vivida." (André Duarte)


Fagulha no escuro

Ninguém entendeu nada quando ele decidiu se afastar do mundo do crime. Aos treze anos já adestrava pit bull, estraçalhando gatos pelas madrugadas. Aos dezessete aprendeu a ganhar dinheiro com a facilidade de quem vive pra cuidar de si mesmo. Até que um dia seus inimigos o espancaram por sois seguidos, a pão e água. Pegaram tudo o que era dele. Ou quase. Nunca confessou para ninguém, mas levar murros, bicudas e pauladas do pescoço para baixo enquanto cuspiam bem alto dentro dos seus olhos deixou-lhe com palpitações cardíacas que veem à tona a qualquer momento do dia ou da noite. Permaneceu refém de alguma fagulha no escuro. Mudou de cidade. Por muito tempo não conseguiu fazer sexo. Sua sorte começou a mudar quando encontrou, lá pelas altas horas da noite, uma gata com as duas patas traseiras esmagadas. Levou-a para o quarto com banheiro e cuidou dela. "É Deus!", atestou com certeza inabalável. "É isso mesmo. É Deus! Nasci com vontade de sangue, meu músculo vira pedra sem eu sequer olhar. Não tem outra explicação." Passaram-se quase oito meses até ele desvendar seu nome.





Saliva gotejando


A noite começa a dar sinais que está chegando. Memórias atraindo-se com resquícios de contorções quase apagadas. Transpira de um frio absorvido por quantas camadas foi inevitavelmente necessário acontecer. Alguns milhares de anos esquivando-se de qualquer estirpe de aprisionamento. Sim, um bom pedaço de dias com noites entranhando-se por vielas pelas quais manteve-se fiel. Foi salvo! Por fim há sequelas de tantas vidas e mortes marchetadas por seu de-dentro que para não engasgar de tão entupido segue a trilha das águas abrindo caminhos. Quase esquecidas essas memórias possuem a missão de jamais serem abraçadas pelo colapso desafiando o vivo. Ergue olhar cansado. A ideia era enganar a lua cheia. A luz. Não uivar – por Deus! O eclipse total invalidaria o chamado? Pior que não. Quando enfim percebeu o que já estava acontecendo, viu-se sendo amassado de dentro para fora, camuflando-se; emoldurado pela falta de escoamento. Um arsenal de probabilidades banidas. Pior que tremores: mandíbula estufando-se para fora, tal e qual os ombros, fios grossos apossando-se de toda a pele, saliva gotejando dos dentes. Muito pior que a dor do sangue sendo rasgado, é a espera. Esperar pelo dia em que a lua cheia irá atestar uma vez mais que não há escolha. Cada dia mais atônito. Cada dia mais admitindo uma ameaça constante.




Pupilas são agulhas


Várias vezes durante o dia seu olhar fica ancorado no vazio. Fisgado em redondilhas em torno de um nada que continua aguardando a imagem que nunca encontrou artimanhas para como que materializar-se. Respiração trava pela superfície. Nem sequer adivinha quão inútil é escapulir-se da sensação de espanto fincada pelo seu de-dentro. Quer ser feliz. Como dizer para quem olha o horizonte com tamanho afinco que cedo ou tarde a contaminação sorrateira tomará conta? Seu real está amordaçado a uma lembrança convenientemente fugidia. O impulso foi dado com o murro que seu pai deu em sua mãe. Tinha quatro anos quando a queda iscou-lhe uma fundura cada vez mais íngreme. No dia seguinte sua mãe atestou de pés juntos que tudo o que ele viu na verdade não aconteceu. Queria mais uma chance com o homem da sua vida. Esqueceu - enquanto o rasgo movia-se pelo escuro. Move-se. Mandíbula descascando dentes. Tornou-se testemunha ocular indesejada. No início era sempre durante a noite que o farol dava sinais saltados de vida. Agora, a qualquer hora do dia. Com os passos dos anos a ameaça manteve-se intacta. Onde pupilas são agulhas. Pele é baque. Som sobressalto.



Suspenso no vazio 

Sinto uma falta insuportável de ti. Eu não posso te amar tanto assim. Isso é amor? Sabe aquele dia que vc chorou nos meus braços? Esta seria a minha vez de estar em teus braços. Mas tenho medo de sufocar teus olhos com meu coração sem ar! A minha luz, agora, não faz curvas no céu. Sabe a distância certa entre o Sol e a Terra, aquele abraço capaz de provocar vida? Pois é, a distância agora não é a propícia. Será que realmente não existe sequer a possibilidade de enviar-lhe um sinal? Juro que há olhos vindo de um lugar que ainda não sei definir bem qual. Por isto caminho fitando o chão? Mas isto é uma outra história, voltemos aos olhos. Insistentemente buscando equilíbrio numa desordem que me acena desse futuro presente aqui agora. É isso! Será que é por isto que não encontro esses olhos esquivos? Afinal são os meus. Como capturar meus próprios olhos? No espelho há esse rangido, uma espécie de rastro. Olhos escapulindo da seta do olhar. Tenho sido uma farsa, persistente fuga de alguma culpa fincando raízes. Confesso que ainda não entendo. Constato, no entanto, que em meio a esse meu esforço de capturar esses olhos meus, meu rosto progressivamente se apaga. Quando meus olhos tornam-se nítidos, meu rosto inteiro já não está mais ali. Somente esses olhos suspensos no vazio. Fico então neste jogo, vacilando entre um extremo e outro: quando busco emergir meu rosto, eis que a sensação de olhos esquivos, olhando-me de algum lugar inexistente, torna-se incontestável. Que futuro afinal aguarda uma invisibilidade tão palpável? Outros olhos que não os meus? Como é que olhos destacados de mim conseguiriam anular este processo vacilante? E afinal, tão meu. Tenho refletido muito sobre o toque que não revela diretamente tua presença. Mas quero acreditar que apesar de tua invisibilidade, da lua que está ali apesar de nada em algum momento atestar tua presença, dessa distância interminável, meus olhos continuarão aprendendo a decifrar-te.



Secreto revelado

A surpresa foi incontestável. Estava na frente do espelho apertando os próprios seios quando teve uma ereção. Duro pela primeira vez. E agora, o que fazer? Por vinte e dois anos acreditou ser outro o seu destino. Nunca teve sequer uma meia bomba. Depois de tanto tempo, chega um instante onde se tem absoluta certeza que o Universo está querendo nos dizer algo. Sem pestanejar decidiu colocar peito e bunda. Já havia até desistido desse negócio de psicanálise. Agora está confusa. Desnorteada mesmo! Essa alegria afinal veio de onde? Do peito, da bunda ou do secreto revelado? Apontou ao longe um pavor de nem ao menos cogitar arrancar os tais. De veia em veia sua postura atingiu uma estirpe inabalável. Nunca caminhou tão esguia. Sedução impar. Quando ela surge, tão feminina, é comovente o olhar do homem que a aguarda.





O amor da sua vida


O ano não importa. A cura da AIDS já desatara alguns nós por quase duas décadas. Quando um específico vírus entra em contato com outro específico vírus e eles se anulam, então desaparecem sem deixar rastros. Situação rara, mas surpreendentemente eficaz. Com o passar dos anos desenvolveu-se a ideia da comprovação de que o outro é verdadeiramente o amor da sua vida exatamente quando um vírus invalida o outro. Os casais que não portavam o vírus perguntaram-se se eles, como portadores, seriam a inescapável salvação um do outro. É quando nossos heróis, perdidamente atados por anos a fio, entram na linha de tiro. Um deles contrai o vírus e propõem ao outro contaminá-lo, e assim certamente se anulariam. A proposta apagou-se em cores que nunca existiram.





Quase mole


Ambiente banido. Fumaça suspensa, fincada. Só não se sabe ao certo se a atmosfera pela qual estende-se aproxima as paredes além encolhimento máximo dos braços. Miragem? Não importa, quase sempre balbucia sorrindo. A rua fede, as calçadas estão impregnadas. Sai sem café-da-manhã, esbaforido. Em seu eterno retorno passa pelos banheiros públicos dos terminais de ônibus logo cedo. Guarda grandes quantidades de rolos de papel higiênico. Que depois vende. Almoça de 01 real. Desce e sobe a Avenida Goiás. Anhanguera. Ele também é de calcanhar trincado. Olho afundado. Apesar da aparência maltrapilha, aluga uma vaga. Vez ou outra lembra de tomar banho. Da cama sente cheiro de asfalto quente, quase mole. Pisado. É que não há janela. Sons rastejam por debaixo da porta, pelas dobras.





Me vejo


Encontraram meu corpo. A única forma d'eu não olhar é com minha ausência. Preciso encontrar-me invisível pelo tempo necessário. É tudo tão vivo que certamente parece ser mais do que deveria. Tenho que esquecer, por isso vou mergulhar mais fundo. Quem sabe encontro a fenda que vaza-me para dentro? Há um corredor bifurcando-se bem na minha frente. Estou só, com passos avançando de algum lugar. Diminuo o caminhar e os passos que ouço também quase morrem. Alguém à minha imagem e semelhança vem chegando e chama meu nome. Digo que sim. Então o acompanho. Nunca mais me vejo.






Deitada na penumbra



Nunca foi capaz de dizer não ao homem que a amou com violência nos punhos. Secura devastou garganta impedida. Ódio veio sorrateiro. Encontrou vingança na perda. Suas escolhas deram frutos tortos, nada suculentos. A chuva caía como se não houvesse outro modo de fazer um mundo. Pelos pés lama interminável. Há eixos que jamais se afastam. Entupiu-se. Seu lado esquerdo perdeu-se do passo e do abraço. Confessou à empregada que é um pedaço que rapidamente vai se apagando. Era impossível negar o que anunciavam ser certo. Mas que agora está puído, inútil. Hoje mora deitada na penumbra. Aprendeu que por enquanto é melhor não ouvir as estrelas. Ri e chora na frente da televisão. Quase sozinha.




Secreto sangue


meu ouvido no teu peito
lançou raízes
quentes

na margem agarra-me o secreto sangue
anunciando o fim
do mundo

penhasco de arremessos
arando pelos poros
a origem, o milagre

de lábios inventando
a manhã




MIRAGEM QUE ME RESPIRA


olhos perplexos 
devastando do nó ao infinito
cálido sangue que me acende 


em escombros reverencio tua beleza
intacto rochedo de mármore
abençoando o caos
de Atenas

e ainda ter que habitar coragem
com joelhos arrancados pela engrenagem
do triunfo que vigia cuida carcome
marcheta-me cárcere

isca que teus mamilos lançam
que teu hálito espirala
que tua pele, meu Deus, teus lábios
lacram

mas abre alas ideias tuas
avançando honesta magia além limites
imagens e palavras bombeiam
alavancam meu coração

desato digitais sem jamais alcançar-te
feliz para sempre estendido
em torno da miragem tua